
“A Terra é um Ser Vivo”
(Lutzemberger)
“Há pouco tempo Gaia se olhou no espelho pela primeira vez. Células de seu cérebro a fotografaram da Lua. Ela se achou magnífica, azul, verde, diáfana.” A frase é do ecólogo e engenheiro agrônomo José Lutzemberger e se refere à Terra. Para ele, Gaia, nome poético que a mitologia grega dava à deusa da Terra, é um ser vivo. Os seres humanos são células, algumas cancerosas, de seu tecido nervoso.
Segundo ele, hoje é comum na visão científica a imagem da Terra como uma nave espacial. É uma figura na qual a Terra é apenas o palco da vida e, para nós, humanos, não passa de recursos aproveitáveis.
Mas a nave espacial engana. Uma nave tem passageiros. Em Gaia não há passa-geiros. Tudo é e todos somos Gaia.
O ecólogo gaúcho começa a explicar o conceito de Gaia pela interação. A re-lação profunda entre todos os elementos do planeta. Uma visão quase religiosa da Terra. Distante da doutrina cartesiana, reducionista, que durante séculos norteou o pensamento científico, ele convida para um “experimento mental” e pergunta:
-"Acaso seria possível um planeta como o nosso, mas no qual a vida estivesse constituída apenas por animais, sem que existissem plantas? É claro que não. Por que não? mesmo aqueles animais que só se alimentam de carne, como o leão ou o gavião caramujeiro, que carne comem? Eles comem carne de animais herbívoros ou de animais carnívoros que comeram herbívoros. A coisa sempre termina na planta. Por que termina na planta? Muito simples: a planta sabe fazer uma coisa que animal algum consegue fazer. Elas dominam a técnica da fotossíntese. Captam energia solar. Retiram do ar gás carbônico que combinam com água para fazer substâncias orgânicas. Neste trabalho elas liberam oxigênio. A reação da fotossíntese fornece duas coisas: carboidratos (açúcar, amido, etc.) e oxigênio.
Os animais, para todas as suas atividades, necessitam de energia. A única fonte de energia inesgotável na Terra é a radiação solar, enquanto durar o Sol, mais uns cinco bilhões de anos. Para captar a luz é preciso ficar parado, apresentar grande superfície de captação. É o que as plantas fazem com suas folhas. Pela sua natureza dinâmica, os animais não podem fazer isso. Servem-se das plantas, aproveitam as substâncias orgânicas produzidas por elas.
-Invertendo a pergunta inicial: poderíamos imaginar um planeta com vida sem animais, só com plantas? Impossível. O alimento principal das plantas é o gás carbônico, um elemento raro na atmosfera. Ele constitui apenas 0,003% de nosso envoltório gasoso. São os animais que não permitem que as plantas morram de fome. Eles dominam uma técnica inversa da fotossíntese, a respiração, pela qual retiram o oxigênio e colocam gás carbônico na atmosfera."
Para os que alegam que as plantas também respiram, Lutzemberger lembra que mesmo assim o balanço é positivo para o gás carbônico. Ele aponta um detalhe cu-rioso. O catalisador da fotossíntese é a clorofila, um pigmento verde. E o cata-lisador da respiração é a hemoglobina, também um pigmento, mas vermelho. Na teo-ria das cores, verde e vermelho são complementares.
-"Ora, planta e animais fazem parte da mesma unidade funcional. São órgãos de um organismo maior" - deduz, explicando que esta complementariedade e inter-dependência entre planta e animal, fotossíntese e respiração, sedentariedade e mobilidade, é apenas uma entre infinidades de interações que formam o grande processo vital.
-"Em alguns solos úmidos, extremamente ácidos e pobres em nutrientes, o mundo vegetal consegue avançar com pioneiras muito especializadas, certas plantas carnívoras. Não conseguindo retirar minerais do solo elas se alimentam de insetos. Quando morrem, com o húmus daí resultante enriquecem o solo, preparan-do-o para outras plantas menos especializadas. A morte é fundamental no grande contexto."
A eficiência na fotossíntese proíbe às plantas viajar. Mas elas também têm que conquistar território. O fruto saboroso é o preço que elas pagam ao animal que o come pelo transporte de sementes.
A vida, afirma o cientista, jamais poderá ser compreendida nos termos de Descartes, que via nos seres vivos, com exceção dos humanos, simples máquinas, relógios ou autômatos. Só uma visão sistêmica, unitária, sinfônica, poderá nos aproximar de uma compreensão do que é nosso maravilhoso planeta vivo. Atualmente, diz Lutzemberger, sobram biólogos mas está cada vez mais difícil encontrar na-turalistas. A diferença entre eles está na veneração. Para o naturalista, a na-tureza não é um simples objeto de estudo e manipulação. “Ela é algo divino, e nós humanos somos apenas parte dela.” O naturalista procura a integração, a harmonia, a preserva-ção, o esmero, a contemplação estética.

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